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quinta-feira, 2 de julho de 2020

PRA ILUMINAR QUALQUER DIA GRIS...

Neste dia em que a manhã ainda não nasceu
E o Sol bobo se escondeu
O desejo me transportou até você
Quando o amor ao chamado respondeu
Uma nova chama no meu coração acendeu
E eu saí pra te encontrar impelido pelo querer.

Nuvens cambaleantes dançam ofuscando o Sol
Enquanto meu pensamento é um distante atol
Longe demais até pra eu me alcançar
Se o frio da noite nos cobrir com seu lençol
Buscaremos a luz do astro-rei num girassol
Ou no calor que emana da nossa troca de olhar...

Esse dia cinzento me causa certa agonia
Eu que tenho andado tão distante da alegria
Quero saber logo quando você vem...
Para que eu possa te dizer tudo que meu peito escondia
Trocar o fosco da tristeza pela clareza da euforia
Afastando todo mal com seu bem.

A manhã passa... A tarde vem... A noite cai
E o brilho do seu olhar do meu não sai
Ou eu que não consigo parar de te ver
Com essa luz que te ilumina onde você vai
E que neste dia nublado me guia e atrai
Pelo imensurável sonho de um dia te ter...

O tempo não pára sob as cinzas desta elegia 
O Sol ofuscado dá lugar a uma Lua arredia
E você estende a mão dizendo que quer ser feliz...
Nos olhamos nesta nossa silenciosa simetria
Mesmo sem luar nesta noite ou Sol no outro dia
Nosso encontro há de iluminar todo e qualquer dia gris...


João C. Lima.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

NUA...

Nua...
Sua silhueta contra a luz branca da Lua
Entre travesseiros amassados e lençóis
Os bicos eretos e róseos dos seus seios
Como a apontar meus devaneios
Feito a luz de mil faróis...

Nua...
Seu corpo delgado que arfante sua
Gotas de prazer sobre tudo que for meu
Sua boca na minha boca, avassaladora
Me faz um refém sob o domínio seu
De forma única e arrebatadora!

Nua...
A explosão do nosso gozo acorda a rua
Nesse embate estrondoso da volúpia nesse quarto
Nossas línguas que se transformam em só uma
Nosso querer de tardios desejos tão farto
Enquanto o cio da  noite para a madrugada ruma...

Nua...
Misturamos nossa carne quente e crua
Como se fossemos a descrença e a fé
E sentimos ao redor o ar em ebulição
Instintos primitivos de homem e mulher
Nessa nossa quase perfeita comunhão...

Nua...
Seu corpo pequeno que na cama flutua
Quando atingimos no deleite o cume
Transcendemos o que restou do tempo e do espaço
Alcançamos das estrelas seu vasto lume
Para renascermos entrelaçados num abraço...


João C. Lima.






segunda-feira, 29 de junho de 2020

PARTIDO CORAÇÃO PARTINDO...

Vou por aí partindo corações
Com o meu coração partido
Vivendo e revivendo as desilusões
Vou na emoção me consumindo...
Causei e sofri algumas decepções
Ao longo desse tortuoso caminho
Sob qualquer Sol ou na força das monções
Sei que minha sina é ser sozinho...

Vou por aí partindo corações
Com o meu coração combalido
Vivendo e revivendo as sensações
Vou na tristeza me diluindo...
Ensinei e aprendi algumas lições
Ao longo desse insólito caminho
Sob qualquer Sol ou na chuva dos verões
Sei que o coração não se aquece só com o vinho...

Vou por aí partindo corações
Com o meu coração destruído
Vivendo e revivendo as impressões
Vou no desejo me reprimindo...
Vi e mostrei algumas revelações
Ao longo desse insondável caminho
Sob qualquer Sol ou na fúria dos tufões
Sei que ave migratória não tem ninho...

Vou por aí partindo corações
Com meu coração sem sentido
Vivendo e revivendo as imperfeições
Vou na paixão me permitindo...
Vivi e morri algumas emoções
Ao longo desse incógnito caminho
Sob qualquer Sol ou na seca dos sertões
Sei e sinto meu partido coração partindo...


João C. Lima.

O AMOR E A DOR...


O amor e a dor 
Caminham no mesmo passo
Como a transparência e a cor
Ocupando um só espaço...

O amor e a dor
Se completam em seu todo
Não importa como ou onde for
Cada qual a seu modo...

O amor e a dor
Se repelem e se atraem
Um tentando ao outro se impor
Mas de dentro do coração não saem...

O amor e a dor
Se consolam na desilusão
Um gera paixão o outro rancor
E juntos a solidão...

O amor e a dor
Me acompanham por esta estrada sem fim
A dor e o amor
Agora sei, vivem dentro de mim.


João C. Lima.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

INEXORÁVEL...

Meu coração é como um barco
Com velas abertas a todo vento
Partindo pra longe deste mundo farto
De transitório quanto inseguro, sentimento...

Me sinto longe de tudo ao redor
Desta casa, das coisas, dos poucos amigos...
Sigo aberto à vida e ao que ela propor
Navegando solitário entre a paz e os perigos...

A cada novo dia vou soltando as amarras
Que me prendem a tempos ao seu frágil cais
Desatento às repetidas histórias que narras
Vou sutilmente partindo, sem olhar pra trás...

"As coisas mudam", disse-me alguém
E o sentimento também é mutável
Quando o coração não quer mais ser refém
O desejo de partir se torna inexorável...

Meu coração é como um barco
Singrando pra longe do que foi uma vida
Quando duas existências findam num arco
Só resta o adeus da despedida...


João C. Lima.

terça-feira, 23 de junho de 2020

NÉCTAR...


Senti como um beija-flor
Quando seus lábios toquei
Coração explodindo em furor
No ato em que sua boca beijei.

Voei sem sentido ou que for
Perdido e sem Norte fiquei
Nunca recebi tanto amor
E nem tanto amor desperdicei...

Na poesia mero versejador
Sem você, apaixonado, voei
Confundindo amor com labor

Outros jardins então explorei
Mas em nenhum encontrei uma flor
Com o néctar que em seus lábios provei...


João C. Lima.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

MAIS VELHO...

Diante do espelho os cabelos grisalhos
Contrastam com a pele escura
Lembranças quebram-se como galhos
Enquanto a sensibilidade se depura

O reflexo no espelho evidencia as rugas
Reentrâncias que a vida não deixa esquecer
Ansiedade da paz ou feridas das rusgas
De batalhas passadas ou ainda por ser...

Há muito desisti de competir com o tempo
Para acompanhá-lo é preciso mais que sabedoria
Sentir sua presença em cada movimento

Contemplar a noite vislumbrando o dia
Transformar o mundo em seu próprio momento
E entender sua passagem, como versos de uma elegia...


João C. Lima