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sexta-feira, 19 de junho de 2020

CAFÉ PRETO... E PÃO FRANCÊS COM OVO.


Na lembrança viva ainda arde...
Da Tijuca, naquela "nossa" antiga padaria
Onde a garçonete sorria matreira quando nos via
Quando íamos tomar aquele café no finzinho da tarde...

O café tinha que ser além de quente, preto e sem leite
E pra saborearmos e repetirmos de novo
Um belo sanduíche de pão francês com ovo
Completava de todo o nosso deleite...

E conversávamos sobre tanta coisa afim
Nosso papo fluía solto e o tempo passava por nós
Você se abria com a sutileza da sua voz
E eu como sempre falava tão pouco de mim...

Nosso encontro repetíamos com renovado prazer
Pra conversarmos um pouco sobre tudo
Às vezes ficava te ouvindo, admirando mudo
A eloquência das suas palavras a me embevecer...

Almas gêmeas nem sempre juntas estão
E a gente se curte com essa força além do carinho
Se afastando e se reencontrando no mesmo caminho
E se aquecendo sem perceber na chama da emoção...

Parece imaginação, mas ainda posso sentir
O cheiro e o vapor do café posto sobre a mesa
E o pão francês com ovo, de saborosa riqueza
Que a gente na gula pedia mais um pra dividir...

Mas o café em si, é mais que um pano de fundo
Pros nossos encontros nas tardezinhas da Tijuca
Onde esquecíamos desta cidade maravilhosa e maluca
Tão interiorizados ficávamos naquele nosso mundo...

Hoje estamos meio distantes assim...
Esperando aquele café que ainda não veio
O papo gostoso que deixamos sem querer pelo meio
E a velha paixão que ainda não chegou ao seu fim.

João C. Lima











terça-feira, 16 de junho de 2020

A ARTE DA TECELÃ...


A aranha a teia tece
Em seu meticuloso
Sobe e desce
Sem medo do vento e do tempo
Vai ela tão delgada
Tecendo a rede delicada
Em seu sutil movimento.

Seu tear fico admirando
No seu paciente trabalho
Seus fios sob o Sol brilhando
Como mágicas vias
Que ela tece com apreço
Sem pressa desde o começo
Ou medo das intempéries dos dias.

Tecendo a trama quase sem fim
Além do tempo ou espaço
Entre as plantas do jardim
Centrada em seu universo
Estica os fios ligando-os com simetria
Borda e reborda com maestria
Como um poeta rebusca seu verso.

Perco a noção do tempo e da hora
Observando-a no jardim bordando
Admirador privilegiado sou dela agora
Tecendo sua rede, nesta cálida manhã
Vai assim em seu tecer ziguezagueando
Enquanto o tempo do tempo vai passando
Eu me extasio olhando a arte da tecelã...


João C. Lima.







 


segunda-feira, 15 de junho de 2020

ESCOLHAS...

Escolhas
No vento
São folhas
Na água
Bolhas
De sabão
Que a brisa
Leva 
Mas não se desfaz
No pensamento vão.

Escolhas
No caminho
São trilhas
Na estrada
Milhas
De asfalto
Que o carro
Cruza
Mas não se vê
No pensamento pauto.

Escolhas
No tempo
São horas
No amanhecer
Auroras
Do dia
Que a estação
Muda
Mas não se transforma
No pensamento elegia.

Escolhas
No rio 
São águas
Na correnteza
Léguas
Do ribeirão
Que a cachoeira
Deságua
Mas não se afoga
No pensamento solidão.

Escolhas
No amor
São sensações
Na paixão
Emoções
Do sentir
Que o coração
Explode
Mas não se finda
No pensamento porvir...


João C. Lima.















quinta-feira, 11 de junho de 2020

DEVORADOR DE ESTRADAS...


Minha alma devora estradas
Tanto asfalto, quanto terra
No retrovisor, vidas passadas
Rumores de paz, silêncios de guerra...

E vou devorando estradas sem fim
Com a avidez de quem não quer chegar
Sempre tão juntos, distantes no fim
A hora se faz de outros rumos rumar...

Quero partir pra longe daqui
Pelas trilhas que trilho descobrir lugarejos
Buscar um sorriso que me faça sorrir
E um corpo quente pra sublimar meus desejos...

Sentir no rosto a poeira dessas idas
Ir ao futuro, viver o presente, sem temer o passado
Tantas entradas nessas estradas, tão poucas saídas
Pra esse amor pelas intempéries da vida sovado...

Hoje conciso, não preciso muito pra viver
E pra morrer de amor quase nada, eu diria
Entre morrer ou viver desse amor por você
Escolhi a solidão das estradas como companhia...



João C. Lima.

sábado, 6 de junho de 2020

AMANTES DE ALMA...

Mesmo distantes...
Um ao outro ligados
Na inconstância constantes
Sentidos sintonizados
Um do outro por instantes
Na paixão eternizados
Nas ideias brilhantes
No amor desatinados.

Mesmo afastados...
Um do outro, perto
De emoções carregados
Sentimento aberto
Um no outro, plugados
Nesse porvir incerto
Pelo cupido flexados
Desse desejo concreto.

Mesmo remotos...
Um ao outro frequentes
Nas canções e nas fotos
Nunca de todo ausentes
Um do outro, devotos
Nesse sentir, presentes
A causar terremotos
Nos corações e nas mentes.

Mesmo sem perceber...
Um ao outro acalma
A força do bem querer
Afasta da desilusão o trauma
Um ao outro pertencer
No amor nesse agalma
Onipresentes, num ser
Dois amantes de alma...


João C. Lima.


















quinta-feira, 4 de junho de 2020

O SEU CABELO ESCURO...


Na noite adentro, o seu cabelo escuro
Rouba por querer das estrelas a luz
Como a purificar esse ar impuro
Sob a brisa noturna, ele dança e seduz...

Na madrugada afora, o seu cabelo escuro
Ofusca a luz da Lua, se luar houver
Em ondas amolece meu coração tão duro
Me enlaçando em você sem eu nem perceber...

Na manhã acima, o seu cabelo escuro
Intimida o Sol, a ponto dele entre nuvens nublar
Me põe de joelhos e eu até juro...
Noutro cabelo jamais me enredar...


João C. Lima







terça-feira, 2 de junho de 2020

MARIA-FUMAÇA...



Numa antiga estação de trem
Aguardo a Maria-Fumaça chegar
Aqui no interior do interior de algum lugar
Onde lembranças distantes sempre me vêm...

Sentado no banco rústico de madeira
Estou sozinho nesta vazia estação
Sentindo um "nada" em meu confuso coração
Enquanto a luz do Sol vem deitar sobre a soleira...

Vejo entre os trilhos, folhas secas sopradas ao vento
E a poeira que dança zonza com algum redemoinho
Na viga que segura o telhado, um abandonado ninho
Como eu me sinto neste preciso momento...

Ouço passos na plataforma escura de concreto
Mas posso ver que não há ninguém passando
Talvez fantasmas de um passado, também esperando
Esse enigmático trem, de horário incerto...

Me concentro em meus pensamentos perdidos
São tantos quantos as pedras do "lastro" dessa via
Nessa remota quanto abandonada ferrovia
Posso até escolher entre meus delírios tão sortidos...

Ao longe ouço o apito estridente da Maria-Fumaça
E vejo subir aos céus a fumaça que da sua chaminé sai
O embalado trem vem chegando, pra pegar quem nunca vai
Enquanto uma lágrima furtiva minha visão embaça...

Quando a locomotiva pára estremecendo a estação com seu porte
Vejo que os vagões estão vazios... Sem passageiro algum...
Embarco solitário... O apito toca deste trem de destino incomum
Então entendo, que cada um escolhe seu meio de partir, após a morte...


João C. Lima.