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domingo, 22 de agosto de 2021

PLANALTO...

A grama queimada crepita sob o Sol branco e cáusticante
Um vento que vem e sopra num misto de quente e frio
Nas edificações ao redor um tom gélido e exuberante
E meu coração que chora na imensidão desse vazio...

Um mendigo fuma crack deitado na escadaria íngrime e infinita
Enquanto um carcará dança desengonçado sobre os telhados
Meu olhar se desvia furtivo ao passar de uma moça bonita
E no asfalto escuro automóveis cruzam assim desembestados...

O ar de tão seco racha os lábios e ofende minhas narinas
Mas esse vazio das ruas é que me deixa incomodado e aturdido
Nessa cidade sem mar, morros, botecos ou esquinas...

Sigo aqui tão solitário quanto perdido...
Cumprindo sob os olhos de Ogum minhas tantas sinas
Pois mesmo quando derrotado, nunca me dou por vencido...



João C. Lima.

domingo, 15 de agosto de 2021

LONGE DA MENINA QUE NA FOTO ME SORRIA...

Aqui onde a escuridão da noite chega vadia
Enquanto no céu a Lua pálida flutua fria
Nesta estranha e distante Brasília
Longe da menina que na foto me sorria...

Aqui onde o frio da madrugada invade a rua vazia
Enquanto no céu o brilho da última estrela se perdia
Nesta estranha e distante Brasília
Longe da menina que na foto me sorria...

Aqui onde a claridade da manhã chega assim sem alegria
Enquanto o Sol desperta em meio a monotonia
Nesta estranha e distante Brasília

Aqui onde a solidão em meu coração faz moradia
Distante de onde venho e sem estar onde queria
Longe da menina que na foto me sorria...


João C. Lima.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

DELICADEZA...

Orvalho acolhido entre as pétalas da flor
Neblina aveludada que cobre solene a estrada
Fim da tarde tingindo o céu com rubra cor
Breu da noite quando se percebe entre o tudo e o nada...

Chuva fina desmaiando sobre os telhados da cidade
Poeira dançando que a luz esmaecida ilumina
Lágrima denunciando terna e dolorosa saudade
Brilho do olhar de um amor refletido na retina...

Vento que sopra nas folhas provocando um farfalhar
Mar arranhando a areia da praia com viril sutileza
Nuvens singrando nos céus em seu lento navegar

Calor de corpos entrelaçados entre o erotismo e a pureza
Lábios tesos na pueril ânsia de enfim se encontrar
Permitindo refletir na tez da alma, tamanha delicadeza...



João C. Lima.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

VELHOS SOBRADOS...

Perambulo
Entre velhos sobrados
Abandonados
Talvez tão assombrados
Quanto eu...
Suas carcomidas fachadas
Tão velhas
E desgastadas
Mostrando que o tempo no tempo
Se perdeu...

Eu tão perto do fim
Busco nesses sobrados
Quem sabe sobras de mim
E perambulo
Tão nada, tão nulo
Entre os velhos sobrados
Um suspenso jardim...

Repletos de passado
E histórias tantas
Velhos sobrados
Com suas fachadas
Pichadas...
E seus vasos de plantas 
Em suas sacadas
Cheias de fuligem e pombos
Tristonhos assombros
Que a cidade 
Na sua velocidade
Se esqueceu...

Eu que ando tão sem um amor
Quanto sem rumo
Em meio ao meu caminho
Um tempo arrumo
Pra admirar esses velhos sobrados
Que estão por quase toda cidade
Num misto de desleixo
E saudade
Do que era antigo e se desfaz
De um tempo que no tempo
Não volta mais...



João C. Lima.

sábado, 17 de abril de 2021

SUAS LÁGRIMAS...

Dos seus olhos derramaram
Caíram tantas
Rios formaram
Encharcaram plantas...

Dos seus olhos marejados
Desceram cascatas
De tristezas inundados
Mortas fragatas...

Dos seus olhos a cor
Se desmanchou
Em dor...

Dos seus olhos, vazou
Para o mar, perdido amor
E me afogou... 



João C. Lima.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

JURA DE AMOR...

Hoje cedo um halo de luz do Sol penetrou pela fresta da janela
Pra iluminar o semblante adormecido dessa mulher em flor
Seus cabelos embaraçados no travesseiro, tal castanha procela
Contrastavam com os lençóis de alvíssima cor...

As cortinas balouçavam quando o vento sinuoso tocava nelas
Ela acordando se espreguiçou ao som monocórdio do despertador
Abrindo seus olhos que são como amêndoas pintadas em óleo sobre tela
Me brindou com o seu sorriso sedutoramente acolhedor...

A caneca de louça, ainda fumegava quando entreguei nas mãos dela
Ao me beijar senti nos seus lábios do café todo sabor
Felizes dançamos pelo quarto, tal qual, cavaleiro e donzela...

E por instantes esquecemos as mazelas que o mundo quer nos impor
Ali ternamente abraçados, como um só, eu e ela
Numa troca de olhares fizemos, silenciosa, nossa jura de amor...



João C. Lima.

domingo, 4 de abril de 2021

LAJOTAS...

Depois da chuva, poças formaram ilhotas
Sobre o caminho de pedras que leva ao coração
Soltaram-se trancas, abriram-se portas
Mas a moça não disse, nem que sim, nem que não...

Depois da madrugada, o orvalho deixou suas gotas
Sobre o caminho de pedras que leva a paixão
Onde borboletas desvairadas voavam tontas
Como um coração descompassado na sofreguidão...

Depois da noite densa, ecoou o pisar de botas
Sobre o caminho de pedras que leva a solidão
Onde um anjo negro, com imensas asas tortas
Veio sentenciar o amor, a essa prisão...

Depois do por do sol, a noite desceu em cotas
Sobre o caminho de pedras que leva a desilusão
E sentimentos mordazes vieram como agiotas
Querendo emprestar ao mundo essa aflição...

Depois da ventania, nuvens se deslocaram soltas
Sobre o caminho de pedras que leva além da razão
Pensamentos confusos e palavras pouco doutas
Formaram no âmago, uma torpe canção...

Depois do verão, o outono trouxe o amor em compotas
Sobre o caminho de pedras que leva a outra estação
Por onde, a moça descalça caminha pisando em lajotas
Vindo enfim me encontrar, quiçá pra sempre, então...



João C. Lima.